Meu pai


Estou com meu pai no hospital e ele me conta seu grande sonho: ele quer construir um predio de 8 andares majestoso com 8 piscinas.... Quer que todos os filhos morem la, perto dele.

Ele está muito confuso... Fala coisas sem nexo, pede pelos filhos homens... Tudo muito estranho e triste.

Que coisa louca uma pessoa ir desaparecendo assim de si mesma.

Um homem que fala latim, grego, ingles, italiano, francês... Que leu tudo que se possa imaginar, de Homero a Goethe.

Pergunto a ele aqui do meu lado qual foi o livro que ele mais gostou de ler na vida e ele me diz que foram os livros da coleção Memórias de um Médico, que conta a historia da Revolução Francesa. Ele diz que ė do Alexandre Dumas, eu acho que ele está se confundindo.

Meu pai.
Meu pai?

Homem obtuso, duro, quieto. Dedicado às próprias manias, rituais, rotina. Qualquer coisa o tirava do sėrio e o levava a uma explosão súbita, de raiva, loucura, palavras do fundo de seu trauma infantil. Agente fugia, se escondia.
Homem bonito, lindo. Alto, corpo perfeito, olhos azuis azuis.... Triste.

É uma pena ver uma pessoa passar pela vida assim, sem se preocupar com o que transmitiu para quem foi gerado pelo seu ser...
Ser pai deveria ser um grande feito, uma grande missão. Pessoas que não possuíssem o dom de gerar, criar, ensinar e transmitir com afeto, ética, doçura e dedicação o especial da vida para aqueles que se fizeram a partir dele, não deveriam jamais receber o título de PAI.

Meu pai não foi pai.
Infelizmente é duro concluir.

E mesmo assim estamos lá e nos dedicamos a cuidar dele, que, mesmo no leito, diabético e com pressão alta, um pouco esclerozado, sem conseguir urinar e magro feito um cachorro, ainda assim se permite resmungar, tratar mal todos que o cercam, reclamar de tudo e vez ou outra ensaiar seus derradeiros acessos de cólera.
Que absurdo!

Li uma vez um conto... vou tentar depois lembrar de quem. Talvez Lya Luft, Perdas e Danos? Talvez...

No conto o filho de um pai violento e infernal, que o expulsa aos 8 anos de idade de casa e o coloca em um orfanato longe de sua mãe para sempre, ao chegar à vida adulta recebe um dia um velho mendigo, morrendo de fome e largado de Deus na sua porta. Era o pai.

O que faz ele?
Cuida? Dá o que nunca recebeu? Perdoa?
Não.

Ele interna seu pai em um asilo para velhor da prefeitura e vai embora, sem perdão.

Eu?
Acho que perdoei meu pai de vez em quando.
Perdoei quando vou lá e escuto seu sonho e ajudo ele a sonhar mais, dando corda para sua fala sem sentido. Sonhe mesmo, Demosthenes!

Mas, não perdoo nunca quando o espírito que habita os velhos avarentos e ruins de alma baixa e ele volta a ser o monstro, egoísta, voltado a si e que nem sabe o que acontece com cada um de seus filhos.

Minha irmã Carmem, que nasceu com síndrome de down e foi abandonada por ele avida toda, morreu e ele nem sequer soube disfarçar a indiferença.

"e eu?" gritava ele do outro lado do telefone quando liguei para lhe dar a notícia. " E eu que estou aqui morrendo de fome e a moça ainda não aprontou o meu jantar?"

Este é meu pai que nunca vou perdoar.

O outro? o que sonha e devaneia com uma familia ilusoriamente unida no prédio que ele vai construir?

O Outro é o que guardo na foto e mostro para minha filha caçula de três anos, que adora o avô, pois este sabe brincar, fazer rir e se derrete todo com os netos, que realmente aprendeu a gostar.

Ser pai é muito difícil. Ser avô não exige nada, só afeto e diversão.

Este pai, este outro pai... quando ele aparece a gente se comove, amolece, cuida e,

tenta, amar...

21 de Setembro de 2010, quase Primavera, um dia de sol e chuva em São Paulo, lindo.

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