Minha mãe enviou a roupa do primeiro dia de vida da Alice!

Minha mãe, Celma, era uma mãe muito dedicada e muito prestativa para com as pessoas todas a sua volta. Era uma dona de casa ímpar: ao mesmo tempo que era bagunceira com suas coisas pessoais, era impecável com as roupas de cama, mesas sempre bonitas para o café da manhã, almoço e jantar, caixinhas e vasinhos de flor no lavabo, com toalhinhas de linho brancas bordadas à mão... um mimo!
Como avó então, imbatível! Todos os netos eram apaixonados e são até hoje fiéis à memória dela...
Ela tinha um ritual sempre que um neto ia nascer.
Acreditava piamente que a primeira roupa que um bebê veste é muito importante.
A Roupa do primeiro dia era algo sagrado para ela! Trazia a boa sorte da vida! a Saúde, a alegria, todo o amor do mundo para aquele novo ser.
Minha mãe sempre comprou a roupa do primeiro dia das minhas filhas.
Ninguém vai acreditar no que eu vou contar, mas minha mãe, depois de morta, conseguiu fazer chegar a mim a roupinha do primeiro dia da Alice, minha terceira filha, que veio ao mundo 1 ano e meio após minha mãe ter nos deixado.
Foi assim:
Eu estava na maior crise por não conseguir providenciar a roupa do primeiro dia.
Quase nove meses de gravidez e eunão conseguia sair do lugar para nada...não conseguia montar a malinha da maternidade, porque faltava para mim a roupa do primeiro dia, que sempre vinha de minha mãe...
Andava chorando para lá e para cá de saudades dela e me sentindo incapaz de continuar sem ela... Como ia ser com a bebê recém nascida sem minha mãe ao meu lado?
Minha massagista, uma mineira maravilhosa e que acabava de ter também uma bebê, na época com 9 meses, tentando me ajudar no meu desânimo me indicou uma loja super bacana de roupinhas para o primeiro dia, mas que ficava fora de SP, em Águas de Lindóia, chamada Brotoeja.
Eu nunca que iria lá naquela altura do campeonato!
No mesmo dia em que ela me falou da loja, por coincidência, eu falei com o Luciano (meu irmão de criação, filho da minha mãe preta, a Nair...) por telefone e convidei ele para vir em casa. Ele disse que não poderia vir porque estava indo para.... Águas de Lindóia!!!! Eu, não acreditando, comentei da loja, passei a ele o nome e pedi para ele que, se desse, fosse até lá...
Nunca imaginei que ele fosse...mas
Passado um mês o Lu chegou na minha casa, no dia do chá de bebê da Alice, com um presente em uma sacola: BROTOEJA!
Nem acreditei!!!
Então ele me contou... Chegou lá e procurou a loja durante três dias e nadade a encontrar! Ninguém sabia da Loja...
No último dia, dia em que ele iria embora, de noite, ele estava numa praça e falando da loja com a esposa na frente de um sorveteiro.
O sorveteiro ouviu a conversa e falou – Ah, Brotoeja? Minha mãe costura para esta loja! Vocês não iam achar nunca, pois é muito pequenininha... deu o endereço e no dia seguinte o Lu, persistente (eu já teria desistido... me intrigou esta perseverança dele em ir lá) foi lá.
Era uma portinha, sem placa, só com uma janela.
Ao entrar o Lu e Nair disseram que sentiram ali uma familiaridade: "coisa de Dona Celma", ele disse.
A dona, uma velhinha, perguntou como eles tinham chegado até lá e o Lu, esquecendo que tinha sido minha amiga massagista, disse que não sabia, mas que a irmã dele (eu) tinha pedido para ele ir lá e que ele achava que tinha algo a ver com a minha mãe, pois a loja tinha a cara dela, da D. Celma.
A mulher quis saber mais sobre minha mãe... o Lu contou que ela tinha morrido 2 anos atrás, que ela era meiga, baixinha, gordinha, falante, olhos castanhos esverdeados... e o nome era Celma...
Para espanto dele, da Nair e de todos nós, a Mulher falou – "Ah, mas eu sei quem é esta mulher! Eu conheço ela muito! Ela vinha aqui sempre, todos os anos, para fazer o enxoval dos netos!!!"
Acreditam????
Minha mãe ia lá, com o Tute.... a mulher lembrava dele, um senhor mais velho, estrangeiro, que ficava sentadinho esperando ela comprar... A mulher sabia dos nomes dos hotéis onde minha mãe se hospedava! E para completar, ela ainda achou uma antiga agenda onde tinha o nome, endereço, telefone, tudo de minha mãe! A Loja tem 40 anos...
Pode isso?
Não é para se arrepiar de pensar que ela deu um jeito de comprar a roupinha que ela queria para a nova netinha???
Pois foi assim... e eu, quando vi a roupinha e ouvi a história, morri de chorar... Minha mãe estava ali comigo, com certeza.
E minha filhinha nasceu e vestiu-se toda de rosa, com o presente da avó que nunca pode ter o prazer de conhecer.
Primavera de 2007, Novembro.
Comentários
Postar um comentário