Pai... o importante é não estar sozinho


Domingo, 17 de Outubro.

Não sei a data exata, mas acho que meu outro pai morreu em um dia 17...

No fim da tarde vi em meu celular várias chamadas não atendidas de minha irmã e irmão. Problema.
Liguei e minha irmã me disse que meu pai estava muito mal hoje e que eles tentaram me achar para que eu fosse lá, pois poderia ser a última vez que eu o veria...
Fui.
Quando minha mãe morreu há 5 anos atrás não cheguei a tempo de me despedir.
Morro de arrependimento até hoje. Acho que não acreditava que ela pudesse não mais estar lá. Não tive urgência alguma quando o médico dela me ligou e disse que ela teria que ser operada, pois o coração não estava aguentando. Pediu para que fossemos para lá.
Enrrolei, fui até a casa da minha irmã, tomei café, fomos.... quando chegamos lá, eu e Mi, ela já estava na mesa de cirurgia. O médico que a operou nos disse: - " Ela perguntou de vocês e queria saber se os filhos sabiam que ela estava lá. Ela queria saber se vocês estavam aqui e eu disse que sim".
E a gente não estava... Tadinha, sozinha... eu não estava lá para segurar sua mão como ela havia feito tantas vezes comigo. Eu não estava lá para dizer que a amava mais que tudo nesta vida e que ia ficar tudo bem, tudo bem....
E aí ela não voltou nunca mais.... e eu não disse nada e não segurei sua mão, e não estive lá para ajudar ela a suportar o medo de estar indo para a sala de cirurgia tão sozinha.
E ela morreu lá.
Seu coração, que era imenso, literalmente explodiu, rompeu, rasgou. E não teve como segurar.
Minha irmã dizia: - não dá para colar com superbonder?
Não dava nada, não deu.
Puf, acabou. Ela se foi.
Muito, muito louco você não poder ver, estar com, falar, abraçar uma pessoa nunca mais!

E agora meu pai.

Sozinho no hospital... a cuidadora Rose é uma pessoa maravilhosa, a Katia também, mas nada se iguala a ter os filhos a sua lado.
Eu não quero morrer assim!

Então, corri para lá hoje para não sentir de novo o mesmo arrependimento que senti com minha mãe.
Cheguei e vi ele como morto....
Estava com a cabeça virada para o lado, muito pálido, com a rosto muito muito magro, encovado.
A boca aberta e os olhos semicerrados. Não dava para ver se respirava. Assustei.
Cheguei bem perto dele, pus minha mão na sua testa, estava quemtinho. Ouvi sua respiração.
Ufa!
Ele estremeceu com meu toque.
Fiquei fazendo carinho, no rosto, nos cabelos, na sua mão.
Pai, sou eu, olha para mim, acorda! Nada... disseram que ele estava inconsciente desde ontem. Meus irmãos haviam tentado acordá-lo sem sucesso.
Fiquei lá, olhando, tocando nele com carinho, talvez com um carinho que eu nunca tenha demonstrado antes e talvez um carinho que ele nunca tenha recebido de ninguém.
Lembrei de minha avó, a mãe dele, que morreu muito sozinha e sem carinho de ninguém. Com feridas nos pés, como ele agora.

Continuei ali por muito tempo, até que o neto do senhor que divide o quarto com meu pai me sugeriu que eu molhasse uma gaze com água e passasse sobre os lábios dele, pois ele parecia estar com a boca seca....
Fiz o que ele sugeriu e, como que por milagre, meu pai reagiu, mexeu os lábios e entreabriiu os olhos. Acho que me reconheceu!

Fiquei comovida com a fragilidade dele.
Começei então a falar baixinho para ele:
- Pai, sou eu, sua caçula, sua filha Ana Clara.... Tá tudo bem, viu? Vai ficar tudo bem!
Quero te contar uma coisa que vai te fazer feliz....
Sabe que ontem nós nos encontramos, seus 4 fihos e fizemos um churrasco, ficamos juntos e
tentamos reestabelecer uma harmonia? Foi ótimo! E agora está tudo bem, como você queria.
quem sabe até a gente constrói o seu sonho de morarmos todos perto e juntos?

Disse isto e tive a impressão de ver uma lágrima no cantinho dos olhos dele... acho que ele me escutou. E sei que disse a coisa certa.
Disse que o amava, que ia voltar amanhã e que ele ia ficar bom, ia voltar para casa, ia ver os netos, ia ver a minha pequena Alice que ele tanto adora.
Senti que ele escutava.

Por fim, eu havia levado para ler para ele o "Livro das Virtudes" de William Benett.
Li um poema sobre a fé.
sei que ele escutou.

e agora? Agora é esperar.
O rim parou de funcionar, há uma infecção incontrolável e ele já está tomando antibióticos de décima geração! Vai fazer uma transfusão de sangue amanhã.
Enfim...

Tudo isso é muito triste.
Não é justo termos um fim como este.
Me recuso a aceitar.

E talvez eu faça algo.
Ainda não sei, mas há de ter uma saída digna para a vida. Não é possível que passemos a vida com tantos sacrifícios para depois na hora de nossa morte não termos algo mais humanizado, digno, um bom lugar.

Sei que agora estou triste mas estou mais tranquila. Porque fui, porque expressei e porque falei.

Talvez ele não suporte esta noite?
Talvez ele não esteja mais amanhã?

Sei que estou insone e tive que escrever para apaziguar minha alma.
Que sofre e lamenta.
Mas que vive intensamente a morte do pai.

... agora sim.

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