Irmãos

Tenho cinco irmãos.


Não, na realidade são seis. Três homens e três mulheres: uma irmã não é de sangue, é filha do marido da minha mãe. Isto é uma longa história.

A narrativa se faz de assombros, risadas, lembranças desconexas que tecem um fio único que pode ter sua origem em 1914, em 1934 ou em 1964...

Sempre me espantou esta repetição de um mesmo algarismo.
A história poderia começar em Berlim, no início do século, em Caratinga na década de trinta ou em Belo horizonte às vésperas do golpe de abril de 64.

Tão difícil iniciar esta escrita!
Tentarei.
Quando minha mãe tinha 23 anos ela se apaixonou por outro homem, estando casada com meu pai.

Eles viviam na zona sul de São Paulo, na periferia, em Sto. Amaro, mais especificamente em um bairro chamado Chácara Sto. Antônio.

Viviam em uma casinha pequena, de dois quartos, sem luxo algum, sem geladeira.
As verduras eram mantidas dentro de bacias com água para não estragar.
A barriga do terceiro filho ou filha já estava adiantada no dia em que ela, mineira de 23 anos, olhos espertos e jeito de menina, tentava subir no ônibus quando, cheia de pacotes, com um filho de três e outro de 2 anos, um puxado pela mão e outro no colo, foi abordada por uma mulher truculenta e cheia de uma voz forte com sotaque alemão:


- Você está maluca, mulher? Andar assim com esta barriga e duas crianças sozinha e ainda tentar subir neste ônibus? Deixa eu te ajudar com estes pacotes... para onde você vai?

Descobriram em poucos minutos que moravam na mesma rua, de terra, a poucos metros uma da outra.

A mulher jovem, de nome Alice, minha mãe, sucumbiu ao poder autoritário da mais velha, Mirna, e se deixou conduzir pelo gesto da outra: tomaram um taxi juntas e foram para casa.
Deste dia em diante iniciou-se uma estranha amizade.
Mirna, com quase 40 anos, tinha uma filha de 2 anos, da mesma idade do segundo filho de Alice, João.

Mirna não tinha grandes habilidades para o dia-a dia de uma criança. Era artista plástica, intelectual, com todos seu ser voltado às grandes questões de sua própria existência. Viera da Europa havia poucos anos, fugindo da perseguição nazista.


Nascida na Suíça italiana, filha de uma mãe judia convertida ao catolicismo, foi criada na Alemanha. Sua fala era uma mistura de todas as línguas às quais havia sido exposta durante sua turbulenta vida. Isto se tornava pura poesia. Lembro-me que a ouvia falar e era muito natural o som do alemão, italiano e português sempre mesclados.


Minha mãe era uma mulher doce, delicada, magra e aparentemente frágil. Aparentemente porque em seu interior sempre residiu uma força imensurável e uma capacidade de realizar grandes coisas indizível.

Nasceu no interior de Minas, em um lugarejo que hoje não existe mais chamado Santa Maria do Sassuí, em 1934.

Filha mais velha de uma família de seis filhos, cinco mulheres e um homem, era a menina dos olhos de seu pai.

Inteligente, extremamente inteligente. Sempre foi uma criança excepcionalmente esperta e acima da média. Aprendia tudo sozinha, curiosa e questionadora. Na escola ajudava os professores no ensino das crianças de sua idade. Decorava os versos em Latim e Grego e os recitava para os colegas.
Se achava feia. Odiava seu cabelo encaracolado, que a mãe, quando estava furiosa, vivia chamando de “pixaim”.
Durante algum tempo de sua vida teve uma única irmã: Léa, dois anos mais jovem que ela, com a qual viveu intensa amizade. Léa era a menina linda, de olhos verdes, cabelos lisos e cara amarrada, tímida e sempre um passo atrás da irmã. Ao andar na rua, sempre se deixava ficar atrás e a mãe a censurava e dizia:
- Ande, Venha aqui, pare de andar atrás de nós como uma sombra, com estes olhos de peixe morto...
Minha avó.
Querida e amada avó, Doralda.
Mulher de fibra, mulher brava.
Sempre agitada e dedicada à família, foi também uma mulher com força demais para seu tempo. Em 1934 já era farmacêutica e ajudava na vida da família aviando receitas nas drogarias das cidades por onde passavam. Foi uma mulher que se casou por amor.
Em um tempo onde casamento e amor eram dissociados, minha avó foi uma mulher que teve coragem de romper um noivado de anos por ter se apaixonado verdadeiramente por um homem, meu avô, Bolívar, que literalmente a laçou.
Com uns 19 anos, às vésperas de seu casamento, Doralda estava no quintal de sua casa ajudando a mãe a pendurara as roupas no varal quando Bolívar surgiu por sobre o muro e num gesto matreiro pegou uma corda, fez um laço e jogando-o sobre ela, puxou-a e a [prendeu em uma árvore dizendo:
- Você vai casar comigo, sabia, moça?
Ela soube. Ela viu. Naquela instante ela soube que aquele seria seu marido, seu homem, seu amor.
Ele morreu deixando-a moça, com 36 anos e os seis filhos.
Ela nunca teve outro homem e nunca abandonou o luto.
Acho que até o final de sua vida chorou quietinha à noite a falta de meu avô.
Foi ela quem nos ensinou, a mim e a minha mãe, que existe um grande amor possível na vida de uma mulher e que este deve ser perseguido até ser encontrado e, quando encontrado, jamais o devemos deixar escapar. Este amor da vida é tudo. Deve ser cuidado, regado, delapidado e aprimorado até chegar às raias da perfeição.
E foi este amor que minha mãe encontrou.
Foi este amor que minha avó viveu.

Então Alice e Mirna se conheceram e passaram a freqüentar a casa uma da outra, ajudando-se naquilo que cada uma tinha de melhor. Alice dava para Mirna suas habilidade de moça caseira, mãe primorosa, dona de casa impecável: cozinhava como ninguém e tinha um Dom inato para lidar com crianças, invejável.
A filhinha de Mirna, Ina, aos poucos passou a ficar longos períodos do dia com Alice, João e Afonso, seus filhos. Adorava ficar sentadinha no colo de Alice que vivia a contar histórias e fazer brincadeiras com as crianças e adorava mais ainda comer a deliciosa sopa de legumes, colorida e cheirosa que ela preparava para os pequenos.
Alice passou a cuidar de Ina para Mirna para que esta pudesse se dedicar a seu trabalho de pintura, textos e leituras filosóficas.
Em contrapartida Mirna dava para Alice aquilo que seu espírito libertário mais ansiava: a interlocução, o discurso inteligente, livros, diálogo, a arte.
Quando chegava a noite e as crianças iam dormir, Alice ia para a casa de Mirna escutar: música, arte, filosofia, psicanálise. Buscava absorver tudo aquilo que antes apenas intuía, que sua alma investigativa tanto ansiava, mas que nunca tinha tido acesso.
Mirna era dura em seus afetos. Dava palavras, mas não dava toque. Era uma mulher rude, áspera, pouco feminina e com uma belíssima retórica. Falava sem parar sobre tudo. Dava ordens e todos a obedeciam.
Alice estava lá. Resignava-se. Ouvia e obedecia.
Mas, em Mirna Alice encontrava seu eco, o ressôo-o de algo que seu ser necessitava.
Era uma troca. Alice alimentava o dia de Mirna, que supria as noites de Alice.
Mas, ele existia. Ele apareceu. Surgiu e cresceu.
O marido de Mirna, Kurt.
Alice o conheceu no primiero dia em que foi à casa de Mirna.
Tudo nele era aos poucos. Silencioso, lento, suave, Kurt era o homem das flores.
Sempre aparecia com uma flor nas mãos, trazendo-a para enfeitar a casa, que ele mesmo havia construído.
De tijolos pintados de branco, a casa de Mirna e Kurt era era uma casinha de boneca no meio de uma floresta; da rua não se avistava a casa, só as grandes árvores, a copa de uma imensa e florida caramboleira, sob a qual cresci brincando de fadas, duendes, gnomos e anõezinhos escondidos no jardim.
Minha mãe contava que foi amor à primeira vista, que ao ser recebida no portão de madeira, após tocar a campainha (um antigo sino de fazenda) ela percorreu a distância até a entrada da casa com o coraçào disparado, com um aperto na boca do estômago que nunca havia sentido antes.
- Ao encontrar pela primeira vez aqueles lindos olhos azuis, profundos, fundos e intensamente doces, senti que ali eu encontrara algo que nunca mais deixaria de desejar, de desesperadamente ansiar, contava minha mãe.

E kurt, hoje com 9 anos, que mal e mal se lembra de sua própria vida, escuta-a dizer isto, sorri e ao ser indagado se para ele também foi assim, se também foi amor à primeira vista, meio sem jeito, tenta se lembrar e responde:
- Provavelmente também foi à primeira vista. Como poderia não ser?

Aos poucos Mirna delegou à Alice os cuidados diurnos de Ada, que era levada para sua casa logo de manhã por kurt, na hora em que ele ia para o trabalho.
À tardinha, Érika, irmã de Kurt, passava na casa de Alice para buscar a menina e levá-la para casa, onde Mirna preparava pratinhos coloridos com legumes, dispostos geometricamente, que Ada odiava e não comia de jeito nenhum. Ada gostava da comida de mãe de Alice, do cheiro mineiro do feijão, do arroz temperado com alho, do bifinho cortado com carinho, da salada de alface e tomate que sempre chegava de aviãozinho ou por uma fada que por ali havia passado voando, ou pelo ratinho que não podia comer a comida. Tudo era uma milhão de histórias.

Kurt a Érika vieram da Alemanha.
Nascidos em Berlim, ela em 1912 e ele em 1914, perderam o pai na Primeira Grande Guerra de 14, lutando nas trincheiras alemãs.
O pai deles, Isidor, judeu filho de rabino, ao assumir a maturidade declarou-se ateu e comunista. Era um competente dentista e uniu-se à mãe de seus filhos, Klara, uma costureira protestante, com quem viveu muitos anos sem casar-se, pois não acreditava nas instituiçòes burguesas, como o casamento.
Quando a guerra começou, Isidor acreditou que devia lutar com seu povo e que não devia Ter nenhuma regalia pelo fato de Ter uma profissão superior e de saude, que lhe garantiria uma situaçào mais protegida nos campos de guerra. Alistou-se como homem comum, sendo imediatamente enviado para as trincheiras, onde no segundo ou terceiro combate, foi atingido e morto, deixando Klara viúva com seus dois filhos, érika com 4 anos e kurt com 2. Antes de partir para a guerra, com receio do que poderia lhe acontecer, casou-se.
Kurt nunca teve uma lembrança de seu pai, de sua voz, de seu tato, só de sua imagem perpetuada em velhas e machucadas fotografias.
Klara os criou sozinha, com o pouco que ganhava costurando para fora. Nunca mais se casou ou teve um companheiro. Esmerava-se para fazer os filhos estudarem, terem um teto, comida e roupas. Dava o máximo que podia dar para vê-los crescidos, fortes e felizes.
E Kurt era um menino especialmente diferente dos meninos de sua idade, assim como foi um homem diferente dos homens de seu tempo. Seus interesses eram a geografia, o estudo da flora, da botânica, da astronomia, das línguas.
Ele frequentava as bibiotecas da cidade em busca de gramáticas exóticas para aprender autodidaticamente línguas longínquas: dialetos do alemão, basco, um pouco da simbologia do chinês, este era o encanto do mundo para ele: as línguas dos homens e os segredos da natureza selvagem.
Ele podia passar horas na floresta às margens da cidade em busca de cogumelos desconhecidos, florzinhas da mata, frutinhas silvestres. Com menos de vinte anos fez uma longa viagem à pé, saindo da Alemanha e indo até a Itália.
Lembro-me dele contando de como certa noite, cansado de tanto andar, estava á beira de uma linda e negra floresta e decidiu procurar um lugar para passar a noite. Chegou a uma clareira , lugar descampado, mas extremamente acolhedor, de onde saía uma brisa quente. Ajeitou suas coisas, aprontou uma cama improvisada com folhas e sua manta de lã, tocou sua flauta transversal de prata (até hoje um objeto de desejo para mim) para embalar-se e adormeceu sob um céu absolutamente estrelado, contando estrelas. Ao acordar descobriu o porque do lugar ser tão quente e agradável: havia passado a noite dentro da cratera do Vesúvio.

Kurt era, pois agora muito do que foi tem se apagado lentamente, um homem só, de muito poucas palavras, mas de muito olhar. Observava tudo a sua volta, todos os pequenos detlahes do mundo, como se não quisesse que nada lhe escapasse, como se seu desejo fosse absorver a vida de um gole só e que assim o vazio de sua existência pudesse ser dia-a-dia prrenchido, com flores, matas, pedrinhas, céu, estrelas, rios, pequenos animais, mas, sempre, com muito poucas pessoas.

Ao conhecer minha mãe seu coração acordou.
Ao ouvir sua voz tão doce, tão feminina, tão receptiva às coisas que ele mais amava, ele enfim despertou para a grandeza que é viver ao lado de um outro ser e dele gozar um prazer indizível, descobrir em cada mínimo gesto impensado a sintonia imposível de se descrever.
Alice o escutava em seu silêncio.
Alice retribuía seu profundo olhar com uma vivacidade jovem, diluída no sofrimento que vivia por Ter feito escolhas tão impensadas em sua vida.
Kurt encontrou Alice quando para ela tudo era um moto contínuo de solidão, medo, saudade e susto.

Na penumbra do portão os olhos dele, tão azuis, encontraram os olhos dela, de um verde caramelado, olhos de menina pronta para se espantar.

O casamento de minha mãe com meu pai foi um grande acidente.

Ela o conheceu aos dezessete anos na escola de freira onde estudava e onde ele era um dos professores, lecionava Latim e Grego.
Certo dia Alice, que tinha se mudado para São Paulo havia pouco tempo e vinha de uma escola do interior de Minas onde o ensino de Latim era muito rigoroso, estava distraída desenhando no meio da aula do professor Demo, meu pai. Ela desenhava um rosto, copiando-o de uma fotografia pequena, com grafite e sua cópia era perfeita pois, além de primorosa em muitas habilidades, era uma grande desenhista.
Meu pai parou ao lado de sua mesa ao ver a aluna tão distante e quis saber o que ela fazia naquele pedaço de papel. Ao ver o desenho, tentou manter a postura professoral e exigiu que ela recitasse o trecho do texto em Latim que ele estava ensinando.
Para sua e das outras alunas surpresa, Alice levantou-se e recitou, não apenas o trecho solicitado, mas o poema inteiro, de cor, com uma pronúncia perfeita.
Tyheodorico encantou-se pela moça.
Frágil, magrinha, de traços finos, cabelos encaracoladamente rebeldes, mãos pequenas e uma voz que parecia sair do fundo mais fundo de sua alma, baixa e melodiosa, com um sotaque mineiro encantador.
Para manter-se no lugar devido à autoridade das letras concebidas, Demo, constrangido com a prodigiosidade da mocinha, que além de grande desenhista o havia surpreendido com seu exímio latim, disse-lhe que a perdoaria pela falta de atenção dada a sua aula se ela o presenteasse com um desenho como aquele que ela fazia, mas que seria feito a partir de uma foto dele.
Iniciou-se o flerte.

Demo era um homem muito bonito, que era cobiçado por muitas mocinhas do Colégio, mas que não sabia olhar para si mesmo e enchergar além de uma história muito sofrida e de fatos violentos, que lhe causavam uma dor que nunca cessou de doer, quer está lá até hoje e que ele nunca ousou compreender.

Meu pai.

Certo dia ele perguntou a Alice se poderia visitá-la em sua casa, no final da tarde, para poder receber o retrato que ela dissera haver terminado.
Sim, poderia. Alice lhe deu o endereço e ele pontualmente esteve lá.
Chegou bem na hora do jantar e a família de minha mãe estava à mesa toda reunida.
Minha avó, toda cheia de boa educação, pediu às crianças que fizessem silêncio para que o jovem professor não escutasse o barulho dos talheres na sala ao lado e percebesse que havia chegado em má hora, visita inesperada. Minha avó ofereceu-lhe uma taçinha de licor, mas o moço respondeu:
- Nào, obrigada, eu não bebo de barriga vazia.
Quase morrendo de tanto constrangimento e falata de jeito, minha avó disse-lhe que se ele quisesse havia ainda um pouco de comida, que a família estava jantando muito simples na sala ao lado, mas que ele seria bem vindo.
O moço bonito e mal educado prontamente aceitou e logo no primiero dia sentou-se à mesa com a família.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Milagre ou diagnóstico errado?

Passarinha

Noite escura